segunda-feira, 28 de maio de 2012

O recuo e a derrota nas práticas de grupo

          Ao longo de alguns períodos fui percebendo algumas derrotas em lutas políticas ou em acontecimentos pessoais tanto meus quanto coletivos. A questão que tentarei abordar toca tanto no coletivo quanto no individual, pois falarei do aproveitamento da derrota e em sua aceitação como medida estratégica para uma vitória posterior.

         Sempre ao longo de uma jornada onde criamos coletivos e debatemos temas que futuramente gerarão práticas políticas, esperamos que estas se concretizem, pois foram fruto de muito trabalho. Como vivemos em um meio onde não há um único grupo, durante o processo de prática temos que replanejar as ações como uma forma de adaptação à um outro contexto, exterior ao nosso grupo. No contexto de um partido ou de um grupo revolucionário, por exemplo, supõe-se a criação de ações em meios não-revolucionários ou até mesmo reacionários. A impossibilidade de prever o desdobramento de nossas ações nos coloca diante de uma política inevitável: O constante ajuste estratégico de ações. E é nessa questão que quero colocar meu posicionamento.


"0 czarismo triunfou. Foram esmagados todos os partidos revolucionários e de posição. Desânimo, desmoralização, cisões, dispersão, deserções, pornografia em vez de política. Fortalecimento da tendência para o idealismo filosófico, misticismo como disfarce de um estado de espírito contra-revolucionário. Todavia, ao mesmo tempo, justamente essa grande derrota dá aos partidos revolucionários e à classe revolucionária uma verdadeira lição extremamente proveitosa, uma lição de dialética histórica, de compreensão, de destreza e arte na direção da luta política. Os amigos se manifestam na desgraça. Os exércitos derrotados passam por uma boa escola. " (Lénine, V. I.; 1920, cap. III).

         O contexto histórico desta citação está entre 1907 e 1910 na derrota do proletário em forma do partido bolchevique durante o processo revolucionário russo. Durante a prática de um grupo, no caso os bolcheviques, houve um impasse histórico inevitável, a vitória da contra-revolução dos Czares. Este movimento de derrota levou à um recuo estratégico, que caso não fosse feito haveria um preço de vidas grande a se pagar. Quando o camarada Lenin então nos coloca diante desse impasse na revolução, ele também nos mostra como os impasses históricos transformam a revolução em si e como os próprios impasses e recuos dão a chance de aprendizado à classe revolucionária, que não teria esta chance de aprimoramento sem este evento.

          Contraponho então a lógica defendida por muitos de "um avanço constante e gradual" dentro da sociedade civíl, prática essa que é, e foi, impossível de ser realizada visto aos incontroláveis eventos decorrentes de práticas revolucionárias. As vezes o caminho mais curto entre um ponto e outro não é uma reta, principalmente quando não se é possível traçar uma reta. Em caso de impossibilidade de continuação da ação o desespero e o ataque desmedido, desorganizado aos grupos opositores, se transformarão em grande desastre para a classe trabalhadora, apenas divindindo-a em cada vez mais grupos, tornando a força revolucionária dispersa.

"E se os bolcheviques conseguiram tal resultado foi exclusivamente porque desmascararam impiedosamente e expulsaram os revolucionários de boca, obstinados em não compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos mais reacionários parlamentos e nas organizações sindicais, cooperativas, nas organizações de socorros mútuos e outras semelhantes, por mais reacionárias que sejam."(Lénine, V. I.; 1920, cap. III).

          Então para não haver repartição ideológica é preciso saber recuar mas sem entregar-se aos argumentos de direita e da aliança de correntes sociais-democratas com a burguesia para dar prosseguimento aos trabalhos revolucionários. Não preciso nem me alongar na discussão de alianças com a burguesia pois não há possibilidade de avanço revolucionário com essa aliança assim como não há como criar uma sociedade comunista sem a luta de clases. Qualquer negociação com meios burgueses apenas revela o entreguismo e peleguismo de um órgão que se diz estar agindo em nome de uma classe, mas que age em nome da outra.

         Por mais que haja necessidade de recuo, não é inteligente uma aliança com setores burgueses pois as duas classes, proletariado e burguesia, apresentam interesses extremamente diferentes. Mesmo a classe trabalhadora tendo como objetivo proteger posição no avanço dos objetivos de grupos revolucionários, esta posição conquistada por alianças com grupos burgueses ou pequeno-burgueses apenas entrega e imobiliza futuros trabalhos.

          Há então uma necessidade de recuo, porém um recuo coordenado entre os companheiros trabalhadores. Não deve haver alianças, nem insistência em estratégias perdidas. O recuo deve ser considerado como uma importante estratégia no meio revolucionário pois possibilita uma reestruturação melhor adaptada à um contexto que em algum momento se tornou desfavorável. Não há necessidade de entrar em conflitos considerados perdidos ou bater cabeças com camaradas, falsos camaradas muitas vezes, de esquerda que tão pouco ameaçam nosso local de trabalho, ou seja, nossos grupos revolucionários. Nosso objetivo é unificar a luta dos trabalhadores, mas enquanto alguns não podem compreender a importância de tal feito para a revolução e pra emancipação humana, não há como catequizar, educar e escravizar para atingir nossos objetivos, pois invariavelmente estaríamos caindo no mesmo contexto capitalista na formação de mentalidades alienadas.

"Os partidos revolucionários têm de completar sua instrução. Aprenderam a desencadear a ofensiva. Agora têm que compreender que essa ciência deve ser completada pela de saber recuar ordenadamente" (Lénine, V. I.; 1920, cap. III).

         Todo recuo ou derrota mostra uma vitória posterior atuando de forma invisível. Cito como exemplo a "Comuna de París", que foi uma grande escola de pensamento para posteriores revoluções, no desenvolvimento da teoria e da prática revolucionária. Será que haveria a Revolução Russa sem o aprendizado sobre a Comuna?  Não precisamos nos apegar à grandes fatos para elucidar o bom uso de uma derrota política ou de um recuo. Podemos colocar em prática este pensamento cotidianamente em nossas lutas como classe trabalhadora. Será que uma perda de direito do trabalhador é unicamente uma derrota? Será que uma restrição na liberdade é necessariamente uma derrota? Temos que adaptar sempre nossas ações ao contexto e mantê-las em constante atualização para não cairmos em formulações esteriotipadas que mais atrapalham o processo revolucionário que ajudam. A derrota é apenas um pretexto para uma ação.

          Quero ir mais além, proponho a aceitação da derrota como um estudo necessário para a revolução. A verdadeira ascenção da classe trabalhadora não se derá por uma vitória constante, mas sim por um conjunto de vitórias e derrotas que juntas emanciparão o gênero humano de toda exploração criada por outros homens. Cada vez que sofremos por muito tempo por alguma derrota ou gastamos energias desnecessariamente em um campo que não trará retornos, estamos adiando a realização do socialismo.


Bibliografia:
Lénine, Vladimir Ilitch (1920). "Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo". Brasil: 5ª Edição Global Editora

Pedro Henrique Corrêa - Estudante de Psicologia da PUC-Rio

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