quinta-feira, 31 de maio de 2012

Novos humanos, tecnologia e seu desenvolvimento dentro do mercado.

          Não é de hoje que ouvimos falar de um novo homem que surge com o advento das tecnologias, principalmente da IA(Inteligência Artificial). Quero falar um pouco das possibilidades de inserção do homem nesse novo mundo em que a máquina passa a fazer parte.

          As crianças de hoje são as mais afetadas certamente por estas novas tecnologias. Antigamente as máquinas facilmente eram reconhecidas como instrumentos sem emoção, apenas dotadas de razão, hardwares e programas pré-estabelecidos, enquanto o homem era o ser além de racional e emocional. Hoje em dia começa a ficar mais difícil fazer uma diferenciação tão clara. Programas de computadores conversam conosco, jogos leem nossas expressões faciais/ondas cerebrais e robôs respondem aos estímulos de maneiras tão variadas que por alguns momentos temos a sensação de que estão realmente vivos. Antigamente era fácil para uma criança desmontar um brinquedo ou aparelho mecânico e entender seu funcionamento, era uma época onde a tecnologia atuava de forma transparente. Hoje vivemos uma época opaca, onde mecanismos eletrônicos são de difícil entendimento e temos de optar por escolher ou não a tecnologia. Independente de entendê-los, os aparelhos, brinquedos e utensílios eletrônicos são muito mais próximos de um ser vivo do que um aparelho puramente mecânico.

          A possibilidade de simplesmente fazer o uso da tecnologia sem propriamente entender ou ver claramente a diferença entre máquinas e seres humanos possibilita o surgimento de uma nova gama de relações entre homem e máquinas. Agora as máquinas detém de algum estatuto de subjetividade, de emoção e de razão. Não entendemos exatamente como ela funciona mas sabemos que funciona e que pode interagir conosco. Mas como decidimos comprar estas máquinas? Em algumas países como Japão, Canada, Indonésia, robôs são muito utilizados.

Exemplo:



          Mas quando se oferece estas máquinas no mercado, qual a intenção que está por trás deste fornecimento e o que fez com que o produto fosse parar no mercado? Eu não sou economista então não vou poder falar com muita propriedade sobre o assunto, porém para um produto desse ser lançado, ele precisa entrar dentro de uma lógica de mercado. Provavelmente ele recebeu muitos investimentos para ser produzido e agora necessitará de um grande aparato publicitário para ser vendido em massa. Um produto vendido no sistema capitalista pressupõe a venda e fabricação em massa deste - ele precisa ser lucrativo - , logo, é necessário assegurar que as vendas serão construídas por um aparato publicitário que despertará o desejo nos consumidores de adquirir o produto. Além disso, é necessário acompanhar o processo de vendas e se o produto passar a diminuir seu número de vendas a ponto de atrapalhar no recebimento dos lucros("atrapalhar" este que é de acordo com as intenções do desenvolvedor/empresa) será então lançado uma segunda versão ou o produto será abandonado pela empresa fabricante.

          O que quero dizer aqui é que a criatividade, bem estar do homem e utilidade de um produto dentro do sistema capitalista, se não um ponto de partida, é algo pouco considerado. Fatores como lucro, mercado, vendas e produção ficam acima de qualquer intenção de melhoria de qualidade de vida. Os produtores, desenvolvedores, engenheiros e demais profissionais que ajudaram a desenvolver tal produto, são, então, explorados por um outro que deseja lucrar com tal conhecimento científico. Aqui a questão não é a dos altos ganhos financeiros do desenvolvedor ou o quanto ele está feliz em fazer este trabalho, mas a questão é que um ser humano é explorado por outro para trazer lucro em cima do fornecimento de produtos em massa para um mercado que será explorado via marketing. Não vamos duvidar que para criar este pequenino dinossauro foi necessário muita dedicação, vontade e esforço. É inegável a quantidade de esforços técnicos para a criação disto que podemos chamar até de "obra prima". Também não podemos negar a felicidade que este produto pode trazer aos consumidores. Mas reforço que minha intenção com esse post é outra, é de ver os antecedentes da produção e seus objetivos maiores, que englobam na maioria das vezes os fatores acima citados. Afinal, de que adianta você ter uma boa ideia, um bom produto, uma boa inteligência artificial, e isso não ter inserção no mercado? O desenvolvedor, o criativo, fica na mão dos líderes de mercado, ou seja, das empresas, que então optarão por diferentes estratégias onde a diferença entre uma e outra é a extensão da coleira colocada em cada desenvolvedor.

          Quanto aos consumidores, vemos que este é um dos elos mais chamativos dentro do sistema tecnologia-desenvolvimento-consumidor. Como atingir o público desejado e como lucrar com ele? Antes de se lançar um produto no mercado alguma avaliação foi feita para verificar se há algum tipo de demanda para o produto. Esta avaliação geralmente é feita por Psicólogos Sociais, que com seus estudos em Psicologia e em Pesquisa saberão a melhor maneira de avaliar o quanto o mercado consumidor está aberto para o recebimento de um novo produto. Só depois desta etapa o produto de uma empresa que "não joga para perder" começa a ser desenvolvido. Depois do desenvolvimento e produção do produto temos que fazer as pessoas olharem para ele e quererem comprar, aí que entra o Marketing, também altamente permeado pelos conhecimentos psicológicos. Para a Psicanálise, todo desejo de um ser humano, é o desejo que foi concebido em algum momento em outra pessoa. Ou seja, antes mesmo de sabermos que desejamos algo, alguém nos disse que é possível desejar tal coisa e que tal coisa é boa e satisfatória. Após sabermos que é possível desejar um produto e que tal desejo é permitido na sociedade, temos a possibilidade de escolher, ou não, o objeto e demandá-lo. Em um mundo em que a todo momento nos fornece produtos industrializados como possibilidades de satisfazermos nossos desejos, fica complicado saber de onde mesmo veio o desejo e qual a intenção dele ter sido criado em nós. Para isso, claro, precisamos acreditar que todo desejo é um desejo de um outro, além do mais, todo desejo é um desejo de um outro e tem alguma intenção com sua satisfação. Quado desejamos algo não é porque simplesmente disseram-nos que isso é bom desejar. Se escolhemos comprar tal produto é devido a alguma coisa que ele nos fornece com a função de diminuir a angustia e nos confortar, de acordo com nossa história pessoal.

          As novas tecnologias em inteligência artificial suprem uma demanda da pós-modernidade, que a demanda de não nos prendermos a relações por muito tempo, em nos mantermos em terrenos flexíveis a mudanças. Não queremos nos prender em relacionamentos. E muito mais fácil comprar o amor, comprar a paz, comprar a companhia, comprar o sexo, e em algum momento que nos for cômodo, descartar e escolher outra coisa. Há algo mais complicado do que nos relacionarmos com outros seres humanos?

         Nosso relacionamento com outros seres humanos são cada vez mais permeados pelo desejo do consumo, do lucro e do descartável. Apegar-se é desnecessário em um meio que sempre fornece um novo produto que aplaca o desejo. Inteligências artificiais moldadas a nosso próprio querer nos fornecem a possibilidade de relacionamento com seres inteligentes que vão nos incomodar até o limite que queremos, pois hoje em dia ainda é mais permitido descartar uma máquina com IA do que um ser humano.

         E o que é permitido desejar? Lucrar. E como vamos lucrar? Criando o desejo por nossos produtos em outros seres humanos.

         O desenvolvimento tecnológico e o bem-estar do homem no capitalismo são os últimos em grau de importância. O sistema capitalista então trás então atraso tecnológico e exploração do homem pelo homem(em todas as etapas da produção e comercialização).


Pedro Henrique Corrêa - Estudante de Psicologia da PUC-Rio

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